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A CASA MAIS ANTIGA
O calendário assinala, na quarta-feira que vem, a passagem de mais um aniversário de Pelotas. Escolheu-se há muito tempo o dia 7 de julho porque nessa data, em 1812, o príncipe regente dom João VI assinou um alvará determinando que esse então distrito da vila de Rio Grande fosse elevado à condição de freguesia - um título eclesiástico e não administrativo, que permitia construir-se, aqui, uma igreja matriz, desligada da matriz de São Pedro. A partir daí, os moradores do distrito não mais precisariam deslocar-se até Rio Grande para preceder a batizados, crismas, casamentos, encomendações, enterros. Podiam nascer, ter registros e morrer sem arredar pé da freguesia de São Francisco de Paula, embora continuassem a ser considerados naturais de Rio Grande.
Esse ato produziu, é verdade, outros importantes efeitos: ao escolher um local para a construção da igreja, os moradores, na prática, estavam elegendo um sítio que serviria de sede, futuramente, para um novo município. Entre três alternativas - o terreno da atual praça José Bonifácio, a lomba do atual Instituto Nossa Senhora da Conceição e os balneários do Laranjal -, optaram pela primeira, e foi então que se ergueu ali a primitiva igrejinha, desde 1910 Catedral de São Francisco de Paula.
No seu entorno, pertencente ao capitão-mor (uma espécie de subprefeito, hoje em dia), chamado Antônio dos Anjos, lotearam-se os primeiros terrenos, constituindo 19 quarteirões em quase perfeito xadrez: 12 ruas longitudinais e sete transversais. Seus limites: no sentido norte-sul, a hoje avenida Bento Gonçalves e a atual rua General Neto; no sentido leste-oeste, a Barroso e a Marcílio Dias.
Era esse, em 1815, o contorno da freguesia, chamada oficialmente de São Francisco de Paula, mas popularmente, já, de Pelotas. Por essa ocasião, novas ruas estavam sendo abertas, no sentido sul, na direção do São Gonçalo, em terrenos da viúva Mariana Eufrásia da Silveira, em obediência ainda ao traçado em xadrez - ao chamado plano hipodâmico. Em 1832, quando se instalou definitivamente o município, no dia 7 de abril - emancipando-se Pelotas, aí sim, de Rio Grande -, a vila de São Francisco de Paula abrangia dois loteamentos, centralizados na atual praça Coronel Pedro Osório: o primeiro, referido, de António dos Anjos, e o de dona Mariana, com novas 15 ruas transversais, desde a rua Sete de Setembro, chamada primitivamente de rua do Poço, até a João Manuel, às margens do São Gonçalo, denominada, sugestivamente, Detrás da Olaria -porque a rua da Olaria era a anterior, a atual Conde de Porto Alegre.
Em 7 de junho de 1835, às vésperas da Revolução Farroupilha, foi que a vila de São Francisco de Paula passou a ter o nome, oficial, de cidade de Pelotas. Pelotas, como Belo Horizonte e como Brasília, foi, portanto, uma cidade planejada, e não surgiu, como outras cidades do Rio Grande do Sul - também, como Montevidéu -, em torno do um acampamento militar, mas sim nas vizinhanças de um parque industrial, quando já ia próspera, por aqui, a fabricação de charque e couros.
Na área do primeiro loteamento, pertencente, não por coincidência, ao capitão-mor, havia funcionado uma antiga charqueada, de propriedade de José Aguiar Peixoto, adquirida por Antônio dos Anjos em 1806. No instante da criação da freguesia, havia no seu interior, ao que se sabe, apenas duas casas: em uma, coberta de palha, residia o futuro vigário, padre Felício, sendo chamada de Sítio dos Coqueiros: ficava na rua Gonçalves Chaves esquina Neto - no limite sul e quase no limite leste da nascente freguesia, e daí o nome primitivo da General Neto: rua dos Coqueiros; na outra, com cobertura de telha, residia a família de Antônio José Torres (ele, sua mulher, dois filhos e uma filha): ficava na rua Major Cícero entre Félix da Cunha e Anchieta, e daí o primitivo nome da Major Cícero: rua do Torres.
Mas o que há de singular, mais do que tudo o que narrei, é a circunstância de que essa última casa ainda existe, continua de pé, com pelo menos dois séculos de existência - um fato raríssimo, e quase ninguém sabe disso. Mais: mantém a sua fachada em estilo colonial, com sala de visitas, uma sala de jantar e dois quartos - as quatro peças ligadas, ao fundo, por um corredor.
Não seria tão caro restaurá-la. E nem seria preciso, para justificar a necessidade, a urgência dessa restauração, acrescentar que se discutiram, ali, os limites da cidade antiga. Sua maior credencial é a sua idade.
Mário Osório Magalhães
Fonte: Diário Popular – 04/07/2004
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Como resultado de convênio firmado entre o CONSELHO CENTRAL DE PELOTAS DA SOCIEDADE DE SÃO VICENTE DE PAULO, entidade proprietária da Casa do Torres, e a ONG VIVA O CHARQUE, foi elaborado um relatório do levantamento das características históricas e arquite-tônicas do prédio, complementado por avaliação patrimonial, proposta de intervenção e recomendações finais.
Esse relatório está disponível aqui para download no formato PDF compactado no formato ZIP.
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